Luandro

Muitas coisas para escrever...

Textos

QUEM ERA AQUELA SENHORA...
QUEM ERA AQUELA SENHORA...

HÁ UM GRANDE TRECHO DE MINHA INFÂNCIA QUE PERMANE ENTRE BRUMAS. NÃO SEI. PARECE QUE NÃO QUERO ABRIR A CAIXA DO CORAÇÃO...
NO ENTANTO, QUANTO MAIS A VELHICE SE INSTALA MAIS ALGUNS FRAGMENTOS PARECEM NÍTIDOS OU TIRADOS DA NÉVOA DO PASSADO. DIZEM QUE NÃO SE DEVE OLHAR PARA ELE. MAS, LÁ ESTAO OS SEGREDOS DO HOJE E O POSSÍVEL CONSERTO DO AMANHÃ.
MUITO TEMPO PASSAVA SOZINHA, DEPOIS DA MORTE DE MEU PAI. MINHA MÃE - COM FORÇAS TIRADAS DO SEU CORAÇÃO EM FERIDA - CUIDAVA DE TRAZÊ-LO À ÚLTIMA MORADA NA ALDEIA, DEPOIS QUE MORREU EM COIMBRA.
EU TINHA CINCO PARA SEIS ANOS... SABIA QUE A TEMPESTADE HAVIA DESABADO SOBRE OS POUCOS ANOS FELIZES. SEMPRE,PORÉM, OCUPAVA-ME COM MINHA PEQUENA VASSOUR DE "GIESTA" E DEIXAVA A IMENSA VARANDA DA CASA DE PEDRA UM PRIMOR...
DEPOIS, COLOCAVA  - COMO PODIA - COMIDA AOS ANIMAIS, POIS IRMÃO COMEÇARA A TRABALHAR DEPOIS DA ESCOLA.
ACONTECE QUE ASSIM QUE EU TERMINAVA DE VARRER A VARANDA, INSTALAVA-SE EM UMA CADEIRA DE BALANÇO QUE DAVA PARA O CAMINHO DE PEDRA UM ESTRANHA SENHORA QUE EU NÃO CONHECIA.
EU PERGUNTEI QUEM ERA MUITAS VEZES. SEMPRE OUVIA A MESMA RESPOSTA:
-CRIANÇA, TU VAIS PRECISAR DE MIM.
ESSAS PALAVRAS REPETIDAS DEZENAS DE VEZES, EU A NINGUÉM AS DIZIA  MINHA MÃE, MAL A VIA E MEU IRMÃO SEMPRE COM LÁGRIMAS NOS OLHOS, DIZIA QUE EU DE NADA SABIA. CONTUDO, O SENITDO DA MORTE DE MEU PAI EU COMPREENDIA... UM JEITO MUITO ESTRANHO... MAS COMPREENDIA...
EU TINHA UMA PORÇÃO POR PARTE DE PAI E SEMPRE QUE ALGUM ME VIA NA VARANDA, ZOMBAVA:
- LÁ ESTÁ A PEQUENA BASTARDINHA. PENSA QUE VAI GANHAR ALGUMA COISA. NAQUELA ÉPOCA, EU NÃO SABIA O QUE SIGNIFICAVA BASTARDA. TENTEI INDAGAR DE MEU IRMÃO E A RESPOSTA FORAM LÁGRIMAS.
ATÉ QUE UM DIA, A ALDEIA ESTAVA AGITAD. TODO À PORTA. MAS, NÃO ERA UMA FESTA. ERA UM ENTERRO.
MEU PAI VOLTAVA, JÁ NO CAIXÃO,PARA A TERRA.
EU CORRI PARA A RUA - ANTES DE IR, REPAREI NA SENHORA JÁ INSTALADA NA CADEIRA DE ONDE TUDO VIA.
EU  TENTEI SEGUIR AQUELE CORTEJO. FUI ESCORRAÇADA PELO MEUS OUTROS IRMÃOS. ATÉ O PADRE PEDIU QUE EU VOLTASSE PARA CASA. AFINAL, MINHA MÃE NÃO SE CASARA COM MEU PAI.
SEM ENTENDER NADA,MAS CHORANDO MUITO SUBI AS ESCADAS E PODIA OUVIR MINHA MÃE AOS PRANTOS NO QUARTO. ENUANTO ISSO, AQUELA SENHORA PEGOU-ME NO COLO NÃO SEI POR QUANTAS HORAS E SÓ DIZIA:
- CALMA, MINHA CRIANÇA.ELE VELARÁ POR TI DE ONDE ESTÁ. NUNCA ESQUEÇAS DISSO.ALI FIQUEI, COBERTA  POR UMA MANTA EM QUE ELA MEAGASALHOU, ENQUANTO O VOZERIA IA SE DILUINDO EM DIREÇÃO AO CEMITÉRIO.
  CREIO QUE, NAQUELA CADEIRA, FIQUEI A NOITE INTEIRA.
  DE MANHÃ, MINHA MÃE COM O ROSTO FEITO SÓ DE SOFRIMENTO, VEIO BUSCAR-ME E PERGUNTOU A RAZÃO DE QUE ESTAR ALI.
  - MÃE, AQUELA SENHORA FEZ-ME ADORMECER.
  ELA NADA ENTENDEU.
  EU TAMBÉM NÃO PORQUE NÃO SEI QUEM ERA E ELA NUNCA MAIS APARECEU.
  POR FOTOGRAFIAS MUITO ESCASSAS, CREIO QUE ERA MARIA DOS ANJOS, UMA DE MINHAS AVÓS FALECIDAS. EU NÃO CONHECI NENHUMA EM VIDA.

Luandro
Enviado por Luandro em 08/09/2019


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras